Uma reflexão sobre o perigo de relativizar a verdade cristã


A Idade Média ficou conhecida porque os filósofos buscavam justificar a fé a luz da razão. E foi um africano o precursor, Agostinho de Hipona, que depois se tornara santo e doutor da Igreja Católica, que criou o método que posteriormente foi adotado e sistematizado. Entre as reflexões, Agostinho afirmou que o homem deve possuir consciência de imperfeição enquanto ser e sempre estar na constante busca de: crescer, fortalecer e de mudar. Para isto,  é necessário ser iluminado pela verdade, mesmo que nem sempre seja aquilo que desejamos ouvir: “As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém tendem a odiá-la quando as confronta.”

Na atualidade parece que a verdade se tornou relativa, só a queremos quando ela serve de base para justificar nossas ações, mas quando nos confronta passamos a relativizar. O mesmo fazemos com o cristianismo quando é conveniente, mas nos distanciamos (relativizamos) quando nos afronta a mudar de atitude. Foi assim com os fariseus e mestres da lei – eles pregavam ao povo a moralidade da lei mosaica e faziam o oposto em sua prática pessoal. Jesus Cristo – o mestre do cristianismo – denunciou veementemente nos evangelhos a necessidade do confronto com a verdade: “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque vocês fecham o Reino de Deus para as pessoas! Vocês não entram nem deixam entrar aqueles que estão entrando.” (Mt 23, 15).

Parafraseando o teólogo Castillo o cristianismo é a humanização de Deus, através de Jesus encarnado que se fez misericórdia viva, ou seja, amor sem limites. Assim, Deus não relativizou seu amor por nós, mas o concretizou na radicalidade. A proposta do cristianismo é difundir um novo reino, mas um reino oposto ao que conhecemos ou temos em mente – é o reino do serviço, do acolhimento e correção fraterna a luz do Evangelho.

A lógica proposta por Jesus Cristo é o confronto com a verdade para correção e para libertação. O cristianismo não é relativo, mas é uma busca constante pela plenitude e esta busca automaticamente inclui o processo de kenosis – esvaziamento de si, das nossas convicções, pela lógica do serviço e do amor. Quando estava na Cruz Jesus disse: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46), com isto, alguns exegetas afirmam que, Ele finalizou o processo de esvaziamento de si pelo projeto maior, o do Pai.        

Portanto, a lógica cristã é o confronto das nossas convicções com a verdade afim de libertar-nos e colocar-nos no projeto salvífico de Cristo. Sendo três pilares fundamentais: acolhida, correção e libertação. No entanto, não podemos confundir a verdade como sendo uma convicção pessoal ou de um grupo, mas falamos da verdade revelada, ou seja, a verdade que é instaurada à luz dos Evangelhos. 

Luiz Carlos Rodrigues da Silva é comunicólogo e estudante de filosofia pela UNICAP

Deixo para reflexão uma canção do Pe. Zezinho, scj

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