Como pensar na morte? Uma reflexão com base bíblica e profética; Por Pe. Eugênio Mezzomo, cp

    

Sentados - Pe. Hildo (esquerda) e Eugênio (direita)

Hoje recebi um texto do Padre Eugênio Mezzomo, cp ao ler me deparei com um assunto o qual queria escrever mas não consegui. O texto nos interpela a refletir sobre a morte, ou seja, a nossa despedida deste mundo físico.  Mezzomo descreve sua experiência diante da páscoa do seu confrade de vida religiosa, e também vizinho de quarto, o Padre Hildo Afonso Camilo Ferrarini, cp. 

    A base de reflexão é o Evangelho de João 14, 1-7 o texto narra a experiência humana de Jesus em preparar seus discípulos para o fato inevitável que é a sua páscoa. Neste capítulo, Ele também antecipa a consolação dos discípulos. No escrito, Eugênio busca os mesmos sentimentos de dores e de esperança vivido por Jesus. Também faz um convite para nos interrogarmos diante da morte, sobre o nosso ser, enquanto homens e mulheres que busca a plenitude. 

    Tive a alegria de conviver com os dois, tanto o padre Eugênio quanto o padre Hildo, no ano de 2019, quando morei na cidade de Colombo/PR e fiz comunidade com os dois. O Hildo possuía vários atributos virtuosos. O primeiro era sua sensibilidade de sentir e se colocar no lugar do outro; depois um homem sempre disponível, mesmo com a saúde frágil; por fim, para resumir, um homem extremamente obediente ao propósito que escolheu. Fez sua páscoa aos 82 anos de idade, com mais de 50 anos de vida religiosa, no sábado (29/08/20). 

    Portanto, acredito que ao refletir sobre, o escritor confrontou com a sua experiência no cristianismo. Quando fiz a leitura foi inevitável a reflexão à luz profética do evangelho e de exemplos contemporâneos como o Hildo; bem como do próprio Eugênio com a teoria e com a prática profética. Aconselho a leitura do artigo e disponibilizo na íntegra logo abaixo - o texto é bem conciso e direto o que facilita a compreensão e reflexão.

 

*Como pensar na morte

Por Pe. Eugênio Mezzomo, cp - Mestre em Bíblia e missionário Passionista 

Texto: Jo 14, 1-7.

A reflexão nasce por causa da morte do padre Hildo Ferrarini, meu colega que vivia ao lado do meu quarto. Sua morte me abalou bastante. Pensei na proximidade de minha partida desse mundo e chorei.

Os antigos usavam o tema da morte e novíssimos para espantar e fazer tremer o povo, sobretudo nas missões populares. Mas, Cristo propõe uma religião que mostra o amor de Deus, que quer nos atrair e organizar o mundo pelo amor como nos diz Santo Agostinho, na cidade de Deus.

O texto proposto se refere à partida de Cristo e a sua volta ao mundo. As palavras são extremamente carinhosas e dirigidas aos apóstolos. Montando a cena da oração, podemos novamente ver as pessoas presentes, o que sentem, falam e fazem. Sobressai e muito um Cristo que nos quer muito e não quer perder ninguém, levando a todos para a Sua casa. Procure entrar no coração de Jesus e entender como Ele o ama e o quer. Descubra o que Ele sente por você.

Uso sempre este texto nos enterros que faço. Jesus diz que vai na frente para nos preparar o lugar. Ele nos quer ao lado dele como um pai deseja os filhos ao dele. Como a esposa deseja o marido ao lado dela. A maior alegria de Jesus é nos receber na casa do Pai. Quem morre no Senhor, dá alegria a Deus, que mandou Seu próprio Filho para nos “seduzir” e encaminhemos toda a nossa vida seguindo os passos de Jesus, que é caminho, verdade e vida.

Há uma pintura no Cairo, no Egito, explicada por Crossan e muito significativa. É o Cristo, que visita a mansão dos mortos. Com a mão direita pega os cabelos de Adão e a com a mão esquerda, os cabelos de Eva. Pendurados nas pernas deles, vão os filhos, os netos e bisnetos até chegar a nossa vez. Cristo vai “subindo” ao céu com toda humanidade pendurada Nele.

Ao reler o texto, procure descobrir os sentimentos de Jesus ao falar de sua partida e os desejos que tem de nos ter ao Seu lado e de “puxar-nos” para junto Dele. Vamos de encontro ao nosso melhor amigo, o nosso noivo e esposo. E ainda quer que tudo o que tem ou tiver tenhamos também nós. Não quer ficar sozinhos. Seremos uma ótima companhia para Ele.

São João Damasceno nos diz que a Mãe de Jesus não morreu por doença, mas, morreu de amor. Amava tanto a Jesus, que a levou para a casa Dele sem sentir nada de anormal além do amor.

Agora podemos nos centrar em nós mesmos e em nossos sentimentos e angústias perante o pensamento da nossa morte. Contemos para Jesus o que sentimos quando pensamos nisso. Pensei muito nisso nesses últimos dias. Percebo que meus dias serão breves e o tempo da minha partida não demorará. Pensei muito nos apegos e nos objetos que possuo no quarto. Todos os objetos do padre Hildo já foram distribuídos. Quando estarei pronto para partir e desapegado das coisas? Como me sinto ao pensar que tudo o que tenho fica para trás e correrei sozinho para Deus.

Como pensar então na morte? Olhando para Jesus, vemos que ele sentiu e tomou atitudes diferentes diante do pensamento da morte. No Horto das Oliveiras (Mc 14, 32-42), Jesus se prostra desesperado e muito confuso. Sua sangue e pede que alguns apóstolos vigiem com Ele. Ele se sente apavorado. Pode ser que também nós nos  sintamos assim e muitas vezes. Outras vezes, Jesus parece mais confiante e pede que não nos preocupemos com o dia de amanhã (Mt 6,25-34):”A cada dia basta o seu mal”. Pede para confiar na providência de Deus e viver como as flores do campo ou os pássaros do céu.

João apresenta um Jesus confiante e vitorioso na Cruz e suas últimas palavras foram: “Pai, em tuas mãos, entrego o meus espírito”. Isso é próprio de João, que nos apresenta um Cristo dono da situação e só morre porque quer. Para João, a prisão de Jesus no Horto das Oliveiras foi um gesto triunfante. Quando Ele diz “Sou eu” todos os soldados caem por terra. Ele não teria assim problemas com a morte.

No entanto, se levarmos a sério a humanidade de Jesus, a coisa foi bem diferente. Como homem, teve suas dúvidas e dificuldades. Não sabia de tudo. Nenhum homem sabe tudo. Na verdade, Jesus sofreu e se apavorou e passou noites escuras e difíceis.

Diante dessa constatação, parece que o texto que apresentei, que é de João, deveria ser confrontado com os medos de Jesus e, ao mesmo tempo, sua coragem e confiança.

Sugiro que se coloque, na cena do texto, ao lado de Jesus e dos apóstolos. Pergunte a Ele como poderemos nos sentir diante da morte. Ponha sua mão ou a cabeça, como fez João, no peito de Jesus. Capte a respiração Dele e o que Ele verdadeiramente está sentindo. Dialogue fazendo perguntas, vendo como os apóstolos reagem e sentem, mas, sobretudo o que Jesus estava sentindo e fazendo. Creio que Jesus poderá consolá-lo, porque ama você loucamente e, quando há amor, há coragem para enfrentar as dificuldades e se aguenta muita coisa.

Creio que só nos sentiremos mais tranquilos diante da morte, se nos sentirmos amados loucamente. Há gente que morre ou dá a vida por amor.

PERGUNTAS:

1-      O que você sente ao pensar na própria morte?

2-      Como você se dá conta que Jesus tem a maior alegria de recebê-lo no Céu?

3-      Você tem acompanhado doentes e pessoas moribundas?

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